:::::::::: Doutrina da Floresta ::::::::::

A Doutrina Do Santo Daime

O movimento religioso do Santo Daime, começou no interior da Floresta Amazônica, nas primeiras décadas do século XX, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra , natural do Maranhão.

Ao Mestre Irineu, como passaria mais tarde à história, foi revelada uma doutrina de cunho cristão e eclético, reunindo tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos íncas como ayauasca ( vinho das almas ) e por ele denominado Santo Daime.

De uso bastante difundido entre povos indígenas da Amazônia Ocidental, a bebida é obtida pelo cozimento de duas plantas nativas da floresta tropical, o cipó Jagube ( banisteriopsis caapi ) e a folha rainha ( psicotria viridis ).

Tem propriedades enteogênicas, isto é, produz uma expansão de consciência responsável pela experiência de contato com a divindade, através do encontro interior com o nosso Eu Verdadeiro. O Mestre Irineu recebeu os ensinos diretamente de Nossa Senhora Da Conceição, que lhe apareceu numa das primeiras vezes que tomou a bebida na região de Brasiléia, Acre. Pouco depois, a Amazônia conheceu outros homens que, através da sabedoria revelada por estas " Plantas Professoras ", criaram escolas e linhas espirituais ligadas às tradições ayuasqueiras. Tal como nos legou o Mestre Irineu, a doutrina traz uma nova ênfase nos ensinos cristãos e uma nova leitura dos Evangelhos à luz do sacramento enteogênico, para afirmar, nos tempos de hoje, os mesmos princípios de Amor, Caridade e Fraternidade.

O seringueiro e construtor de canoas Sebastião Mota de Melo , natural de Eurinepé, Amazonas, foi um homem simples de sólida convicção espírita e trabalhador incansável. Discípulo do Mestre Irineu, dele recebeu o dom de trabalhar com o Santo Daime. Reuniu em torno de sí centenas de adeptos - não por proselitismo, mas de forma natural, como resultado da amizade e do respeito que ele conquistou, ao atender a todos que o procuravam em busca de um conforto para os males da alma e do corpo.

Há cerca de 15 anos retirou-se dos arredores do Rio Branco, Acre, onde havia fundado a comunidade religiosa conhecida como Colônia Cinco Mil, e levou parte de seu povo para uma área virgem no interior da floresta, denominada Rio do Ouro, onde trabalhavam a seringa e construíam casas, desenvolvendo também atividades agrícolas. Dois anos depois fundou o assentamento que se transformaria na atual Vila Céu do Mapiá, no município de Pauini, Amazonas.

A iniciativa cresceu sob sua liderança espiritual e seu exemplo de trabalho. Dirigia pessoalmente mutirões, acolhia pobres, doentes e necessitados. Em 1974 mandou registrar sua entidade, o Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra ( CEFLURIS ), com sede na cidade do Rio Branco, como um centro espírita estruturado sob a forma de sociedade religiosa sem fins lucrativos, responsável pela organização da Doutrina e pela feitura e distribuição da bebida sacramental utilizada nos rituais.

O Padrinho Sebastião, como era carinhosamente chamado por seus afilhados, faleceu em 20 de janeiro de 1990 no Rio de Janeiro, vítima de uma insuficiência cardíaca que o fez sofrer nos últimos anos. Além da viuva, senhora Rita Gregório de Melo, deixou aos filhos Alfredo e Waldete, respectivamente, como presidente e vice-presidente da instituição, a responsabilidade pela continuação de sua obra espiritual e da administração comunitária, feita a partir de uma associação de moradores, cuja diretoria é eleita periodicamente por seus sócios. Atualmente a população da comunidade compreende cerca de 1.000 pessoas, entre a vila e pequenas colocações ao longo do Igarapé Mapiá.

Com o crescimento espontâneo registrado nas últimas duas décadas e os desafios sociais e institucionais decorrentes, a Doutrina se espalhou por diversas regiões do País e do Mundo. O uso do Santo Daime como sacramento enteogênico em um trabalho espiritual de auto conhecimento obedece a regras rituais recebidas por inspiração divina pelo Mestre Irineu e pelo Padrinho Sebastião. Não há uso indiscriminado pois como um sacramento, a bebida é somente distribuída em datas que obedecem ao calendário religioso anual e dentro das regras preestabelecidas.

Os hinários são rituais festivos com cânticos de Louvor a Deus, à vida e as forças da natureza, onde a bebida sacramental é consagrada e comungada dentro de um templo, sob regras estritas de comportamento e organização, além da infra-estrutura de atendimento. Outro ritual da doutrina é o Feitio da Bebida, também sob rigorosas regras doutrinárias, que orientam os mínimos detalhes, cercado do máximo respeito, silêncio e limpeza, num clima estritamente devocional.

Este é um dos principais momentos do trabalho religioso e exige muita concentração, solidariedade, esforço físico e cuidados ecológicos. O produto final de todo esse processo é o Santo Daime. Enquanto sacramento, ele é ministrado com toda a reverência nos momentos do culto. O Santo Daime não é comercializado em hipótese nenhuma. Os centros autorizados ministram os sacramentos conforme seus calendários.

A Doutrina do Santo Daime é uma prática religiosa cristã, ecumênica, que repudia toda forma de fanatismo, sectarismo, racismo e intolerância religiosa. Através de suas condutas os seguidores tem provado que a ingestão ritualistica do Santo Daime no contexto religioso, ao lado da prática social decorrente da doutrina, amplia nossa capacidade perceptiva, criativa, cognitiva e de discernimento, além de ajudar a assumir nossas responsabilidades pessoais e coletivas. Constitui-se, portanto, em um agente profilático e terapêutico a serviço da elevação da consciência do ser humano.


* Como podemos definir nossa Doutrina

O Culto Eclético da Fluente Luz Universal é um trabalho espiritual, que tem como objetivo alcançar o auto - conhecimento e a experiência de Deus ou do Eu Superior Interno. Para tanto, se utiliza, dentro de um contexto ritual tido como sagrado, da bebida enteógena sacramental conhecida como ahyausca e que foi rebatizada pelo Mestre Irineu como Santo Daime.

O uso de uma substância enteógena como sacramento parece ter feito parte das principais tradições religiosas da antigüidade e fornecido a base visionária de muitas das principais grandes religiões hoje existentes no mundo. Nosso culto litúrgico, que se resume em comungar, nas datas apropriadas, a bebida à guiza de sacramento, se denomina Eclético, por que suas raízes estão impregnadas de um forte sincretismo entre vários elementos culturais, folclóricos e religiosos. O uso do sacramento Santo Daime é realizado nas datas do seu calendário festivos, obedecendo as regras rituais que foram estabelecidas pelo Mestre Irineu e pelo Padrinho Sebastião.

Um Conselho Espiritual dirige a Igreja e zela pela manutenção da tradição e dos princípios , ao mesmo tempo que procura adequá-las aos novos contextos .As principais festas do calendário religioso são os Hinários e os Feitios. Hinários são doze horas seguidas de cânticos e bailado em torno de uma estrela de seis pontas, ao som de diversos instrumentos e maracás. Feitios são as festas de produção do sacramento, quando toda a comunidade se mobiliza para fazer a bebida sacramental, que será consumida durante o calendário de trabalhos do ano.

Outro elemento importante da espiritualidade daimista elaborada por Padrinho Sebastião foi a comunidade. A comunidade se constitui no ponto de referência comum para o trabalho espiritual de todos os membros. É a ela que deve retornar todas as boas aquisições que fazemos no nosso aprendizado espiritual. A Doutrina do Santo Daime ou a Doutrina do Mestre Irineu, como também é identificada, nasceu dentro da floresta, brotou no seio do seu povo, uma gente muito humilde e digna. A sua mensagem, que se encontra reunida na forma de coleções de hinos recebidos pelos mestres e adeptos, prega o amor pela natureza e consagra o mundo vegetal e todo o planeta como sendo o cenário sagrado da nossa mãe - terra.

Nosso trabalho mantém portanto vínculos muito profundos com a floresta e pela causa da sua preservação .Isso chega a ser uma questão de fundamento espiritual .Para desenvolver essa parte social e ambiental do trabalho da nossa Igreja na Amazônia, foi criado o Instituto de Desenvolvimento Ambiental Raimundo Irineu Serra que se empenha hoje em gerir e buscar parcerias para projetos de desenvolvimento auto-sustentável , numa região de quase 200 000 ha de florestas, pertencentes a Floresta nacional do Purus, onde estamos assentados há cerca de 16 anos.

Pad. Alfredo Gregório de Melo

Um dos filhos de Sebastião Mota, indicado por ele ainda em vida para ser seu sucessor espiritual e principal responsável pela continuação da sua obra, ainda na década de 70, assumiu a administração da Comunidade Cinco Mil, então um grupo de famílias de colonos que se agrupara em torno da figura carismática do seu pai. Sob a direção de Alfredo, a Colônia Cinco Mil se tornou uma comunidade muito bem organizada, contando com aproximadamente umas trezentas pessoas.

A partir do começo da década de 80,o Padrinho Alfredo esteve à testa da implantação da comunidade no Rio do Ouro, onde a comunidade permaneceu durante dois anos. Foi a partir da sua gestão que se consolidou o crescimento do movimento daimista por muitas cidades brasileiras e também para o exterior. O Padrinho Alfredo conta hoje com 50 anos e tem como suas principais atribuições institucionais as de presidente do Conselho Superior Doutrinário e superintendente - geral do Instituto Social e Ambiental Raimundo Irineu Serra.

Alfredo tem se dedicado ao desenvolvimento dos projetos da Vila Céu do Mapiá, viagens pelo Brasil e ao exterior e ao projeto de construção de um novo assentamento comunitário ecológico na região do rio Juruá, terra natal do Padrinho Sebastião.


Pad. Waldete Mota de Melo

Filho mais velho do Padrinho Sebastião, sempre foi, juntamente com o Padrinho Alfredo, um dos principais responsáveis pelo trabalho espiritual e ritual com a bebida sacramental Santo Daime.


Ocupa hoje o posto de vice-presidente do Conselho Superior Doutrinário, como membro vitalício e de Comandante e Inspetor do ritual em todos os centros e igrejas. Todos que o conhecem mais de perto têm por ele uma grande estima e respeito pela maneira ao mesmo tempo amorosa e enérgica com que ele encabeça o Bailado nos dias dos trabalhos oficiais.



Pad. Manoel Corrente da Silva

Nasceu no dia dedicado a São Miguel, 29 de setembro de 1910, no município de Correntes, no Piauí. Homem simples e solitário, desde rapazola trabalhou duro, viu acontecerem muitas guerras contra os cangaceiros (grupos de rebeldes sociais que infestavam as caatingas do Nordeste brasileiro no início do século), secas, fome, etc.

Passou muitos anos trabalhando como tropeiro de burro e depois levando boiadas do interior do sertão para as feiras do litoral. Em 1942 se alista nos Soldados da Borracha, contigente de trabalhadores nordestinos mobilizados para a produção de borracha, principal item brasileiro no esforço de guerra aliado.

Foi no Acre que veio a conhecer o Mestre Irineu e logo depois Sebastião Mota, de quem foi um dos seguidores. Depois da passagem do padrinho Sebastião, em 1990, se tornou uma espécie de patriarca da Igreja.




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